The Fog

Cinema, Sétima Arte

Reconheço a possibilidade de abordar, de duas formas distintas, este Nevoeiro de John Carpenter. Podemos vê-lo apenas como mais um filme de género, pertencente a uma década pródiga no lançamento de produtos deste tipo, ou vê-lo enquadrado na obra de um autor prolífico, que deixa a sua marca em cada uma das suas obras, utilizando-as sempre como veículo para comentar de forma perspicaz muitos aspetos sociais, raciais e sexuais do mundo moderno.

Se a abordagem escolhida for a primeira, então estamos perante mais do mesmo, um filme de terror pouco refinado na sua estética, que nos conta uma história de fantasmas que foge um pouco ao que estamos habituados (geralmente são casas assombradas, não nevoeiro), e que serve o propósito de nos entreter durante hora e meia.

Mas se atendermos à obra do autor, acabamos por verificar que é mais do que isso. É um filme bastante atmosférico, característica muito própria de Carpenter, sendo que as bandas sonoras por si criadas parecem sempre ajudar na construção destes ambientes típicos da sua filmografia. Depois há a história, que parece inventada às três pancadas mas que encaixa perfeitamente no rol de ideias exploradas pelo realizador americano.

Um dos géneros que Carpenter mais simpatiza, e um dos que mais o influenciou, é o western. Filmes como Assault on Precinct 13 e Escape from New York são exemplos claros dessa influência, mas elementos típicos do género são visíveis em quase todos os seus filmes. Aqui, como em Assault on Precinct 13, temos um cerco, mas neste caso o cerco é de fantasmas a uma cidade, em vez de criminosos a uma esquadra de polícia. Antonio Bay é uma pequena cidade à beira mar plantada. A sua população prepara-se para comemorar o centenário da cidade, quando fantasmas, vítimas do crime que levou à sua fundação, se levantam do fundo do mar para se vingarem dos descendentes de quem os atraiçoou.

Num país em que é conhecido o derrame de sangue levado a cabo desde a sua criação, é normal que por vezes o passado levante a voz e persiga gerações que muitas vezes não têm culpa dos pecados dos seus antepassados. A perseguição aos povos autóctones e a escravatura são manchas sanguinolentas num caminho pouco honroso que nos conduz ao presente dos EUA. The Fog é uma forma de Carpenter colocar o dedo nesta ferida e relembrar a todos que a felicidade ingénua em que muitos americanos vivem foi, e continua a ser, conquistada à custa da vida de muitos inocentes.

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