Skyfall

Cinema, Sétima Arte

É difícil olhar para um filme sobre o agente secreto mais conhecido do mundo sem ter em conta o universo que foi desenvolvido nos vinte e dois filmes anteriores. Por mais que não queiramos, este aspeto acaba sempre por condicionar a visualização e, posteriormente, a avaliação que fazemos. São muitos pontos de possível comparação. São os atores que desempenham o papel de 007, as Bond Girls, os carros, as engenhocas, as músicas, os vilões e a história e a sua ligação com a realidade.

Um bom exemplo disso, é a escolha de Daniel Craig para protagonista da saga criada por Ian Fleming. Fosse outro filme qualquer e não se analisaria tão pormenorizadamente se Craig encaixaria ou não no papel de Bond. Mas aqui temos termo de comparação. Para além da personagem literária, temos um conjunto de cinco atores que já desempenharam este papel, daí surgirem tantas expetativas que podem ser defraudadas.

No entanto, a verdade é que Daniel Craig, contra todas as críticas despertadas pela sua escolha, tem estado à altura do desafio. Pode não ser tão polido, nem apresentar o glamour de Sean Connery ou Pierce Brosnan, mas os tempos mudaram e talvez seja necessário um James Bond mais duro. A guerra fria acabou. O requinte teve que dar lugar à ação. Como M. disse na cena em que estava no tribuna – os inimigos de hoje não são como antes, não são nações, não são localizáveis, vivem nas sombras e por isso é essencial ter uma organização que esteja à altura dos acontecimentos e responda de forma rápida e letal.

Para além da comparação óbvia com os filmes anteriores, temos também que ter em conta a influência de outros produtos deste género. Casino Royale é uma resposta direta aos filmes de Bourne, protagonizados por Matt Damon. A trilogia Bourne mostra-nos uma “herói” mais humanizado. Não é o protótipo espião bem comportado, que segue cegamente ordens hierárquicas e patrióticas. Obviamente o rumo dos acontecimentos assim o exige, mas Bourne é alguém que questiona o que faz e que sente na pele a dificuldade das decisões que tem que tomar. É também alguém que mete as mãos na massa e age de acordo com um código de conduta muito próprio, algo que este Bond acaba por fazer também.

Até Skyfall, o Bond de Craig cola-se muito mais a Bourne do que aos Bonds anteriores. É neste filme que se faz a ligação entre o moderno e o clássico. Por isso, pode dizer-se que este é um filme de transição, com tudo o que isso tem de bom e de mau. Continua a mostrar a energia de Casino Royale, mas faz uma enorme aproximação ao tradicional, conquistando assim alguns fãs que não estavam tão ligados a este novo Bond. Quanto a Daniel Craig, será sempre um Bond diferente, mas algo me diz que de agora em diante podemos esperar mais dispositivos criados por Q, mais namoricos com Miss Moneypenny, mais vilões megalómanos como Silva (excelente Javier Bardem) e mais “Bond, James Bond”.

2 thoughts on “Skyfall

  1. Ainda assim, pergunto-me se havia mesmo a necessidade de “humanizar” o Bond. O cinismo, frieza e distanciamento eram aquilo que o definiam. Não se terá perdido isso? Antigamente Bond era um paradigma a que outros heróis se tentavam comparar, agora tenta-se comparar Bond a outros. Algo se perdeu, a meu ver…

  2. Bom dia JC.
    Compreendo o teu ponto de vista. Realmente, essas eram as características que definiam James Bond e poderíamos ter duzentos filmes com um Bond imutável. Mas gosto de pensar que é bom, de vez em quando, redefinir as coisas. E há outro aspeto a ter em conta. Estes três primeiros filmes funcionam como apresentação da origem de Bond. Julgo que os próximos se vão aproximar mais dessa personagem cínica, fria e distante que mencionaste.

    Passei pelo teu blogue e gostei. É novo mas parece-me que tem potencial para correr bem. Vou seguir.🙂

    Obrigado pelo comentário.

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