Cloud Atlas

Cinema, Sétima Arte

Cada ação tem uma consequência, cada escolha pode levar a um caminho diferente. É incontestável que o que fazemos no presente influencia o futuro. O nosso e o dos outros. Disso ninguém tem a menor dúvida. Mas o sistema causa-efeito é bastante complexo e por mais tempo que passemos a pensar nele, provavelmente nunca o conseguiremos compreender por completo. São sistemas intrincados e com variáveis que aumentam proporcionalmente com o número de pessoas, ou ações, que consideramos.

Mas existem algumas áreas de estudo que se debruçam sobre este assunto. A casualidade é uma dessas áreas e, desde a primeira vez que foi abordada por Aristóteles, que é um tema bastante controverso. Basicamente, o que a casualidade estuda é a relação entre dois eventos, uma causa e um efeito. Existem várias leituras possíveis da casualidade, sendo que a controvérsia assenta na forma como a interpretamos, que pode, ou não, ser científica.

Modelos matemáticos, probabilidades e lógica, são algumas das formas científicas de prever ou modelar a relação entre uma ação e os fenómenos que essa ação desencadeia. Mas existe outra via. Uma via que não tem por base a ciência, mas sim a crença. Se acreditarmos, se tivermos fé, dando o chamado “leap of faith”, podemos assumir qualquer premissa como verdadeira, mesmo que não tenhamos a menor das evidências de que esta premissa é fidedigna em relação à realidade.

E o que tem toda esta conversa a ver com o Cloud Atlas? Tudo. Acredito que o cerne deste filme é a reflexão sobre o que cada um de nós faz em todos os momentos da nossa vida e as consequências de cada uma das ações que tomamos.

Se é verdade que a questão dissecada ao longo de quase três horas me interessa imenso, a forma escolhida para passar a mensagem já não me agradou assim tanto. Para começar, julgo que existe muito por onde cortar neste filme. Há linhas narrativas e pormenores que se não estivessem presentes só teriam contribuído para uma melhor experiência cinematográfica. Personagens e detalhes que seguem caminhos que levam a lado nenhum. Pontas soltas que só servem para desviar o foco do tema, sem lhe acrescentar absolutamente nada de relevante. Tudo isto faz com que exista um enorme contraste entre o profundo e o banal. Por vezes parece que estamos a assistir a algo importante, uma reflexão séria, uma obra meditativa e inteligente, mas depois somos envolvidos em cenas que parecem saídas de um qualquer filme vulgar produzido pelos estúdios de Hollywood.

Depois há a resposta dada à questão da causalidade. Com as suas seis linhas narrativas, que ocorrem em três períodos históricos diferentes, três no passado, um no presente e dois no futuro, os irmãos Wachowski querem passar uma mensagem. A causa-efeito não se restringe apenas a pessoas que habitam um período histórico, é temporalmente transversal. Até aqui tudo bem. Também acredito que uma ação que possa ter decorrido há anos (e.g. descoberta da pólvora) possa influenciar um evento no presente (e.g. levar um tiro e morrer). Mas os Wachowski vão muito para além disso. Dão o “leap of faith” que mencionei anteriormente e introduzem conceitos como a reencarnação e o carma. Aliás, basta olharmos para a definição de carma, que é obtermos um resultado inevitável, seja ele positivo ou negativo, nesta ou noutra reencarnação, por uma ação cometida, e vemos que encaixa que nem uma luva no que nos é apresentado ao longo do filme.

Estamos, portanto, perante um filme que se insere, de forma clara, no movimento New-Age. As influências deste movimento estão presentes e são facilmente visíveis. É tudo muito metafísico e espiritual. Aliás, o género não deveria ser ficção-científica mas sim ficção-metafísica. A ciência desempenha um papel irrelevante nesta história. O que não é propriamente um defeito. Apesar de não me identificar com esta forma de pensar, confesso que vejo aqui potencial e, caso tivesse sido melhor trabalhado, o resultado poderia ser muito melhor. Assim, cheguei ao fim do filme com um sabor amargo na boca. Aquele sabor de quem acaba de ler um livro manhoso de autoajuda (sim, já li um livro desses). Mas valeu a pena a visualização, nem que seja por me ter feito pensar sobre todos os temas que acabei por falar aqui. Foi assim uma ação – ver o filme – que deu origem a um fenómeno – pensar – o que é sempre positivo.

2 thoughts on “Cloud Atlas

  1. Uma crítica agridoce. Quase tenho medo de ver o filme, pois parece-me daqueles que geram expectativas avassaladoras, que depois… pois. Já agora, conheces “Mr. Nobody” de Jaco Van Dormael, de 2009? É um dos filmes recentes de que mais gostei, e a tua crítica lembrou-me algumas coisas do filme.

    1. Agridoce é uma boa palavra para descrever Cloud Atlas.🙂
      Acho que deves ver o filme. Apesar de não ter adorado, não acho que seja o tipo de filme que vale a pena fugir. Mas não vás com as expetativas demasiado elevadas.

      Não conheço o Mr. Nobody, mas já está na minha watchlist.

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