Frances Ha

Cinema, Sétima Arte

frances_ha2É natural que um grupo de pessoas pertencentes a um contexto social da classe média urbana de hoje em dia se identifique com Frances Ha, de Noah Baumbach. Frances, interpretada de forma sublime por Greta Gerwig, representa toda uma geração de jovens culturalmente activos, sonhadores e idealistas que colidem diariamente com um mundo que afinal não é bem o que esperavam. A competitividade do mercado de trabalho, as vicissitudes da amizade e os constragimentos do amor são alguns dos obstáculos que a heroína enfrenta no seu dia-a-dia. Não estamos assim perante um filme onde os desafios da protagonista sejam extraordinários e fora de comum, antes pelo contrário, são mundanos e normais ao mais comum dos humanos. E, curiosamente, o que eleva o filme a outro nível é isso mesmo. É o facto de conseguirmos facilmente nos rever nessas dificuldades, ao mesmo tempo que admiramos uma personagem que vive com a suas frustrações de forma tão natural que as acaba por transformar em algo positivo. Porque no fim de contas, para Frances, muito mais importante do que ter uma carreira estável, uma relação equilibrada ou ser uma pessoa dita normal é ser autêntica e fiel a si própria.

PS1: Outra coisa que distingue esta obra é a sua extraordinária fotografia. Passamos o filme a ser bombardeados com cartões postal a preto e branco de Nova Iorque (e, em menor escala, Paris).

PS2: Não tenho a certeza, mas julgo que este é o filme que mais rapidamente obteve lançamento pela Criterion, a melhor editora de DVDs do mundo. Julgo que isso diz muito sobre a qualidade do trabalho de Baumbach.

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Prisoners

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THE-PRISONERS9Pouco tempo tinha passado desde os créditos iniciais e o ambiente de Prisoners já evocava algo familiar. A atmosfera chuvosa e pesada, as cores frias e a sensação de desconforto gerada pela certeza de que algo de muito errado estaria prestes a acontecer são elementos presentes numa das maiores obras de culto dos anos noventa – Se7en, de David Fincher.
Sou um confesso admirador do trabalho de Fincher e considero Se7en a sua grande obra. Mas ao longo dos anos comecei a fartar-me das imitações baratas que se seguiram uma atrás da outra, como sempre acontece quando algum filme demonstra originalidade e sucesso. Neste caso, não sei se a influência foi ou não directa, mas a verdade é que não estamos perante mais um plágio desavergonhado.

Denis Villeneuve, o realizador que já tinha mostrado o seu potencial há três anos com o magnífico Incendies, consegue o extraordinário feito de acertar em todas as suas opções. A começar pela excelente escolha do elenco (destaque para Hugh Jackman, Jake Gyllenhaal e o arrepiante Paul Dano) que entrega performances irrepreensíveis, fortalecendo um enredo labiríntico mas suficientemente inteligente para não ir por caminhos irrazoáveis. A juntar a isto temos uma cinematografia que ajuda a criar a tal atmosfera “Finchiana” e um ritmo que nos absorve para uma história que, apesar de não parecer, demora duas horas e meia a contar.

Não quero adiantar muitos mais pormenores pois este é um daqueles filmes que se tem que ver para crer, mas posso adiantar que estamos perante uma autêntica e agradável surpresa e um dos melhores thrillers dos últimos anos.

To Be or Not to Be

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Quando pensamos em sátira ao Nazismo e a Hitler há um nome que salta imediatamente nas nossas mentes: Charlie Chaplin e o seu genial The Great Dictator. Sempre pensei que apenas o talento inigualável de Chaplin fosse capaz de reunir de forma extraordinária comédia e um tema tão negro como o Nazismo. Mas Ernst Lubitsch, o realizador americano e judaico, de origem alemã, mostra-nos a razão pela qual alguém inventou o termo “toque Lubitsch” para definir a forma sofisticada, elegante e, quase sempre, alegórica como aborda as suas obras.

To Be or Not to Be é um filme mirabolante que decorre na Polónia, em pleno início da Segunda Guerra Mundial. Repleto de personagens hilariantes, diálogos incisivos e cenas que levam o humor ao extremo, é interessante como Lubitsch consegue, mesmo assim, fazer pairar sobre todo o filme uma atmosfera de terror, uma sensação de que tudo está prestes a correr muito mal. Foi este enorme contraste que o elevou à condição de obra-prima que ainda hoje mantém. Foi o meu primeiro Lubitsch e finalmente consegui perceber de onde vem a reputação de um realizador que se especializou na comédia. Já deveria saber! Qualidade é qualidade, independentemente do género.

Headhunters

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headhuntersDecepcionante! Depois de ter visto o dinamarquês The Hunt, decidi viajar um pouco mais para o norte da Escandinávia e encontrei algo que me parecia ser interessantíssimo. Headhunters é um filme Norueguês cujo buzz se tem vindo a fazer sentir na internet há já algum tempo. Críticas razoáveis, boas notas na maior parte dos sites da especialidade e uma imagem arrojada, foram razões mais que suficientes para entrar no meu radar.

Mas enquanto The Hunt é um filme sóbrio, coerente e inteligente, este Headhunter é demasiado presunçoso, desconexo e, algumas vezes, estúpido. O que é pena, pois caso não existissem tantas pontas soltas, e tanta vontade de explicar tudo ao pormenor, poderíamos estar perante um excelente thriller.

Stalag 17

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640_Q8uqwDVbL5zpY90YbeSnFQ“Não se brinca com coisas sérias” é um dizer comum que se aplica muitas vezes quando se graceja acerca de temas como a religião, a nação, a doença ou a morte. Não é de bom-tom (o que quer que isso signifique) brincar com certas coisas e quem o faz é considerado leviano e, em circunstâncias em que a liberdade não é a desejável, pode até sofrer consequências severas.

Digo isto pois acabei de ver Stalag 17, do brilhante Billy Wilder, e tenho a certeza que o tal dizer deve ter sido usado imensas vezes, por produtores mais conservadores, antes do filme sair. É que a história desta comédia decorre em plena Segunda Guerra Mundial, num campo de prisioneiros de guerra alemão para americanos. Sabe-se que a quantidade de prisioneiros que morreram foi enorme e que as condições de vida por lá eram miseráveis, mas isso não impediu Wilder de fazer um comédia negra, corrosiva e inteligente sobre a forma como um grupo de homens, sem nada a perder, interage depois de saber que um deles é um delator.

As consequências que Wilder enfrentou por tal atrevimento foram simplesmente uma recepção fenomenal do público e o facto de ter produzido um dos melhores filmes de sempre dentro deste género. Outro dizer conhecido é “quem não arrisca, não petisca”.

Gravity

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GRAVITY

Depois do surpreendente trabalho que fez em Children of Men, Alfonso Cuarón volta a mostrar-nos que é possível pegar no cinema de género e elevar completamente a sua fasquia. Gravity é um filme simples a nível de enredo mas absolutamente visionário e esmagador do ponto de vista visual. É um daqueles filmes que nos deixa boquiabertos desde o primeiro segundo até ao aparecimento dos créditos finais. Cuarón é um manipulador exímio de imagens. Cada frame, cada cena, cada movimento de câmara, cada corte está inserido no local certo, na hora certa.

Os filmes de ficção-científica são produzidos de forma abundante todos os anos, mas poucos ficam para a posteridade. Não tenho dúvidas que estamos perante um daqueles que ficará nos anais da história como um dos melhores.

The Naked City

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the-naked-cityThe Naked City está para a investigação criminal, como The Asphalt Jungle está para o assalto. É um filme adiantado no tempo, uma inspiração que serviu de modelo para muitos que lhe seguiram. É impressionante a quantidade de inovações, técnicas e narrativas, que Jules Dassin consegue introduzir neste film-noir, um género onde, felizmente, foi bastante prolífico. As personagens são bem construídas e tridimensionais, mas os verdadeiros protagonistas desta obra são a metodologia de investigação e a bela, e gigantesca, cidade de Nova Iorque. Com o decorrer da história, a cidade é apresentada como se de uma personagem se tratasse. Vemos ruas, edifícios, monumentos, a algazarra do dia-a-dia, o mar, o rio, o pôr-do-sol, e tudo isto numa altura em que se filmava principalmente em estúdio, tentando recriar a realidade quando esta estava ao sair da porta, à espera de ser explorada.

O filme aproxima-se do fim e sentimo-nos sugados pela metrópole das metrópoles e como o narrador, num estilo bastante documentarista, anuncia: “There are eight million stories in the naked city. This has been one of them.” Só uma! Quantas mais ficaram por contar?

Room 237

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room237-2Room 237 é uma exploração das múltiplas interpretações de The Shining, o filme de terror realizado por Stanley Kubrick em 1980. É um produto interessante, se formos fãs do filme e do realizador, pois cria à sua volta uma mística baseada na ambiguidade da sua obra. Mas como filme é bastante frágil, com uma estrutura demasiado fragmentada e sem qualquer fio condutor. Qual é o objectivo? Analisar? Questionar? Não consegui perceber. Por vezes, pareceu-me mais uma compilação de teorias retiradas de um qualquer fórum do que um documentário. Portanto, parabéns pelo esforço meu caro Rodney Ascher, mas é preciso mais do que isto para fazer um filme.

The Conjuring

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TheConjuring20133_zpsc776cfbcO cinema de terror está repleto de clichés e truques para assustar e James Wan, que a maioria das pessoas conhece por ter realizado (e escrito) o primeiro Saw, parece conhece-los a todos. E não digo isto como sendo algo negativo, ninguém gosta de ver clichés mas a forma como Wan os utiliza demonstra mestria e um jeito natural para aterrorizar o mais corajoso espectador.

Em The Conjuring, Wan pegou novamente no tema das assombrações (como em Insidious) e, apesar de não acrescentar nada de novo, fez um filme sólido e atmosférico que poderia ser usado como modelo do género.