Wolverine

Cinema, Sétima Arte

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Há um par de semanas atrás, numa conversa cibernética com um amigo cinéfilo, mencionei que queria ver o Wolverine. O seu espanto fez-se sentir de imediato. “Como é possível perderes tempo com estes filmes sobre super-heróis?” Disse ele quase indignado. Respondi-lhe o mesmo que vou dizer agora, depois de ter visto o filme. O meu cérebro é como o meu estômago, de vez em quando gosta de ser presenteado, não com um banquete dignos dos deuses, mas com uma simples e apetitosa bifana.

Por pensar desta forma, tenho sido apanhado em vários embustes e perdido tempo com coisas que não valem um chavo, mas a verdade é que o contrário também tem acontecido imensas vezes e só por isso vale a pena arriscar.

E foi o que fiz com Wolverine, apesar do primeiro filme ter sido vergonhoso, arrisquei uma vez mais e não me arrependi. Apesar de, mesmo dentro do género, não ser o melhor exemplar de qualidade, é um filme com uma história que entretêm e um protagonista que sempre gostei (personagem e actor). Sendo, para além disso, uma ótima rampa de lançamento para o próximo X-Men.

É uma pena que Darren Aronofsky não tenho continuado com na cadeira de realizador, aí sim poderíamos estar perante algo totalmente original e merecedor de mais atenção, mas a escolha de James Mangold não foi mal pensada. Pode ser um tarefeiro, mas é um tarefeiro que sabe como contar uma história.

Assim, acrescento mais uma bifana a minha lista. Não foi tão saborosa como gostaria, mas tinha alguns ingredientes interessantes.

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Ace in the Hole

Cinema, Sétima Arte

Ace in The Hole.

Pensamos muitas vezes que a discussão em torno dos excessos cometidos pelos media para obter “a” notícia é algo recente, mas a verdade é que é tão antiga como a própria imprensa. A partir do momento em que se cobra um centavo que seja por uma notícia, o capitalismo tece as suas teias e a luta pelo lucro é desencadeada.

É disso que trata Ace in the Hole, de Billy Wilder. Chuck Tatum, interpretado por Kirk Douglas, é um jornalista que representa tudo o que há de pior no ramo. Tatum procura, mais do que dinheiro, a notoriedade fácil e rápida. É um periodicista que já passou pelos grandes jornais dos EUA, mas acaba por ser despedido de todos devido à suas falhas de personalidade, é um ser egocêntrico, impiedoso, altamente manipulador e desprezível. Mas isso não o impede de conseguir um trabalho num pequeno jornal de Albuquerque. Um ano passa sem grandes acontecimentos, até que Tatum vê na desgraça de outro a oportunidade de fazer a noticia que lhe trará de volta tudo o que perdeu.

Billy Wilder consegue, com este noir diurno, criticar a forma cínica e implacável como alguns jornais da época procuravam notícias para aumentar as suas vendas e manter as pessoas interessadas, nem que para isso se ganhasse dinheiro com a miséria alheia. A questão que me surgiu foi, passados 61 anos, o que mudou?

Fruitvale Station

Cinema, Sétima Arte

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Ver Fruitvale Station sem qualquer tipo de expectativas é o equivalente a levar um murro no estômago sem saber bem de onde ele vem. E foi isso que me aconteceu ontem à noite no Leffest, um festival que tem evoluído de ano para ano no que diz respeito à variedade e qualidade da sua programação.

De forma muito simples e espontânea, mergulhamos na vida de Oscar Grant, um jovem de 22 anos que luta diariamente para fugir aos seus maus hábitos. Grant é-nos apresentado como um jovem normal e autêntico com problemas reais. Está longe de ser um exemplo de honestidade ou conduta, mas é notória a sua vontade de mudar, de transformar a sua vida em algo melhor. Mas é humano, ama e odeia, teme e reage, é benevolente mas pecador como todo e qualquer homem. O desenlace do filme, e da sua vida, é demasiado duro e injusto para quem queria tanto mudar o rumo dos acontecimentos.

É este sentimento de arbitrariedade e injustiça que Ryan Coogler, um jovem realizador de apenas 27 anos, com a ajuda de um desempenho monumental de Michael B. Jordan, consegue tão bem captar em Fruitvale Station. Enquanto assistimos ao desenrolar, aparentemente normal, da vida de apenas mais uma pessoa, estamos constantemente sobre tensão pois algo de muito errado parece espreitar a qualquer esquina.

Acabei de ver o filme e a minha mente viajou instantaneamente para a quantidade de vezes que vemos histórias como esta na televisão e partimos muito depressa para juízos de valor. É muito fácil atropelarmos os factos e culparmos os marginalizados, os que têm rótulos, aqueles que muitas vezes são empurrados para decisões limite que nos escapam. E foi essa a mensagem que Ryan Coogler passou muito bem com a sua primeira longa-metragem. Excelente forma de começar uma carreira.